Friday, July 30, 2004
:: a lua que ficou lá longe ::
a gente sabe que em caso de ataque nuclear o melhor é se esconder embaixo da mesa e desligar o forno de microondas. a gente sabe. e depois você olha pros lados e procura umas borboletas e não umas baratas - as baratas e os escorpiões continuam vivos mesmo depois de um estouro de milhares de megatons de energia nuclear. "olha lá uma borboleta", ela disse enquanto reparava no coloridinho do desenho da asa. e eu ainda procurando uma barata morta e um escorpião agonizante, o danado me olhando de frente meio que falando "ainda estamos aqui".
e as explosões atômicas são lindas de se ver e não importa continuar pra contar a estória. aquela borboleta caiu morta, o radio não funciona mais, a tela gigante do drive in do meio do deserto ficou meio queimada; ela chorando: "agora o que acontece?". agora sou eu, o escorpião e as baratas, e nada de um filme de final feliz ou de um massacre de cherokees, ou os óculos do steve mcqueen e cem milhas por hora dentro de um mustang verde musgo. bang bang, o deserto gemendo um ventinho quente com cheiro de nada, a areia vitrificada, ela chorando sem saber porque, a voz engasgada, afogada de tristeza cortante, o nariz escorrendo: "só sobrou aquele escorpião amarelo, o radio não toca mais neil young, acho que não tem mais neil young". tão bonita de ver chorando, mil megatons pra te ver chorando. as bochechas rosadas como a alvorada nuclear do dia seguinte.
a geladeira que desligou, o sorvete derretendo, calor calor calor. "não desiste agora, essa é a reta final", ela dilacerada, querendo ouvir o radio olhando a asa toda preta do que sobrou da borboleta.
o escorpião parado me olhando fixo, sua cauda altiva. eu, ele, ela e o lamento, um gosto estranho no vento, parece que esse é o começo de tudo. eu espero as nuvens de poeira radioativa que o vento vem trazendo. confiantes - eu e o escorpião -, o que ele trouxer vamos chamar de destino. ela esperando o radio, os marines, as borboletas, a música do neil young.
em caso de ataque nuclear a gente sabe o que fazer: não olhar pra luminosidade da explosão, entrar de baixo da mesa, procurar as borboletas, tomar todo o sorvete antes que derreta, esquecer do neil young, ficar amigo do escorpião e, com as costas da mão afagar as bochechas dela pegando as lágrimas na descida. tão bonita: a pele de seda líquida, branca branca branca; a boca vermelha. a lua que ficou lá longe.
ela que me perdoe, ainda estamos aqui.
e as explosões atômicas são lindas de se ver e não importa continuar pra contar a estória. aquela borboleta caiu morta, o radio não funciona mais, a tela gigante do drive in do meio do deserto ficou meio queimada; ela chorando: "agora o que acontece?". agora sou eu, o escorpião e as baratas, e nada de um filme de final feliz ou de um massacre de cherokees, ou os óculos do steve mcqueen e cem milhas por hora dentro de um mustang verde musgo. bang bang, o deserto gemendo um ventinho quente com cheiro de nada, a areia vitrificada, ela chorando sem saber porque, a voz engasgada, afogada de tristeza cortante, o nariz escorrendo: "só sobrou aquele escorpião amarelo, o radio não toca mais neil young, acho que não tem mais neil young". tão bonita de ver chorando, mil megatons pra te ver chorando. as bochechas rosadas como a alvorada nuclear do dia seguinte.
a geladeira que desligou, o sorvete derretendo, calor calor calor. "não desiste agora, essa é a reta final", ela dilacerada, querendo ouvir o radio olhando a asa toda preta do que sobrou da borboleta.
o escorpião parado me olhando fixo, sua cauda altiva. eu, ele, ela e o lamento, um gosto estranho no vento, parece que esse é o começo de tudo. eu espero as nuvens de poeira radioativa que o vento vem trazendo. confiantes - eu e o escorpião -, o que ele trouxer vamos chamar de destino. ela esperando o radio, os marines, as borboletas, a música do neil young.
em caso de ataque nuclear a gente sabe o que fazer: não olhar pra luminosidade da explosão, entrar de baixo da mesa, procurar as borboletas, tomar todo o sorvete antes que derreta, esquecer do neil young, ficar amigo do escorpião e, com as costas da mão afagar as bochechas dela pegando as lágrimas na descida. tão bonita: a pele de seda líquida, branca branca branca; a boca vermelha. a lua que ficou lá longe.
ela que me perdoe, ainda estamos aqui.