Tuesday, January 27, 2004

qualquer riso idiota 

Alma selvagem. Você caminha entre todas as coisas vulgares, e seu andar é cheio de um pertencer absurdo de tudo que fica em volta: todos esses olhares vulgares, todo esse esteriótipo de um tipo comum demais, todo o riso idiota, todas as cores repetidas; tudo você ignorou, você flutua pelo salão mais leve que um som delicado e agudo.

Ao meu resgate. Nada, você não percebe esse meu olhar muito, e só, meu. Passou por mim e deixou esse aroma tão, tão gostoso. De impressionar: como rebola e é encantadora e nada de eu saber seu nome ou qualquer coisa que quebre esse momento pequeno.

Então eu paro. Certo, parei de pensar nas coisas lindas e cai de novo no areal. Riso idiota que sufoca esse suspiro ao relento da madrugada de chuva. Pingo depois de pingo e eu tomando a chuva cuspida de janeiro no meio desse horror à margem do trem da Barra Funda do rio tiête.

Sabe morena tão charmosa: melhor assim, eu imagino você de um jeito impossível, você - eu aposto no cavalo que perde - deve sorrir bem bonita qualquer riso idiota.

:: as próteses :: 

inútil usar os óculos. A visão já está perdida: já sou o animal que precisa de próteses. Não me permito essa dependência, essa visão borrada é minha, a quase visão perfeita do par de lentes fica do lado de fora. Ver sem ver e, ainda, olhar e ver. Eu vejo quando ela chega, eu vejo que é ela, eu sei como ela tem que se mexer, reconheço esse movimento que é muito dela.

A beleza dos gestos dispensa os detalhes perdidos. Esse charme parece que tem cheiro, parece que a luz refletida e processada meio torta diz tudo que precisa ser entendido.

[perfume meclado: olor de café quente e preto; a brisa da rolha do vinho; fumaça de cigarro que só começou à queimar.]

O entendimento da luz, da forma, da cor. A linha esquecida. Detalhes perdidos. Sentindo só o conjunto daquele momento: perfume, úmidade, pressão, temperatura, luz e sombra. Cada coisa tem seu lugar, e todas elas, nesse lapso pequeno, são minhas.

inútil usar óculos. A visão ficou perdida. Esqueço os detalhes.


[ressaca branda; outro tempo, o mesmo tempo]

um sujeito de cueca caminha sob o sol do meio dia, na avenida paulista. Uma garrafa de gin na mão esquerda, um picolé de limão na direita. [guitarwolf, summertime blues]

Monday, January 19, 2004

:: germe :: 

São Paulo, novembro 1980

"Pedro não tem dormido no berçario, é raro ter sono e quando achamos que ele quer dormir pois está chateado e pedindo alguma coisa que não sabemos o que é, colocamos ele no berço mas não dorme. Varia o tempo em que ele fica deitado, às vezes brincando com as pernas, e quando a chupeta cai no chão ele reclama. De uns tempos pra cá temos deitado Pedro num colchonete e ele fica até se animar pois percebemos que ele fica irritado (não é sono) com determinados acontecimentos ligados à sua relação com as outras crianças. Pedro evita entrar em disputas, nunca provoca e isso pode ser porque ele receia a agressividade das outras crianças; mas ele parece gostar de preservar sua tranquilidade e talvez não veja sentido na disputa se há tantas outras coisas para se fazer."

Thursday, January 15, 2004

-- empty -- 

tudo empilhado até o teto. Entupido. E não sai nada de bom. Só atento às coisas efêmeras, às vulgaridades que não tem quase importância nenhuma. O quase pântano teima em ficar por aqui.

queria aquele desejo de mudar tudo de volta.

O super eu parece que foi embora e nem disse tchau e até logo.

Sunday, January 04, 2004

[o quase pântano] 

no meio do pântano a certeza da quase que absoluta imobilidade. A alvorada deixou o vapor mais leve e essa densa bruma cobrindo e evaporando. Tudo bem branco; leitoso; o sapo coacha solitário; uma única rajada de vento e as folhas chiam pouco demais.

o quase silêncio. Nada que testemunhe esse dia nascendo no meio do nada do pântano.

[interlúdio]

outro cigarro: uma luz suave, quase sentindo, quase, quase.

[outro tempo, o mesmo tempo]

os cipós estrangulando essa àrvore enorme. O pântano e quase nada testemunha. Abruma dissipa. O sol do dia reflete a água turva.

o sapo coacha sozinho, o quase pântano por testemunha.



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