Saturday, June 19, 2004

:: fur clash :: 

“Agita-te, túmulo!
Minha voz que se lamenta
É vento de outono”
Bashô



filme de apartamento
cinema francês
palavras sussurradas
azul, cinza, branco, vermelho e preto
luzes frias, frio, alvorada
ausência de diálogos
ritmo lento
filme de outono; filme de amor


prelúdio

seq1. int. trem vazio do metrô – fim de tarde

uma garota branca – bem branca -, de cabelos pretos e olhos cinzentos observa a cidade através da janela de um trem do metrô.

Seq 2 int. apartamento – dia

Um casal divide o espaço de um apartamento; se encaram.



[v. o.]
ela - olha, eu não posso te deixar aqui…

ele - aqui…

- é, não posso ir e te deixar aqui. Eu te deixo e continuo com você.

- Melhor assim.

- …verdade, era tudo verdade, eu posso jurar…

- eu desejo o desejo do outro. Eu desejo o seu desejo. Eu existo perto do limite. Eu sou um outro.

-…é verdade. Agora é verdade.

- Me importa o rastro do tempo, o vôo desse pombo feio, o vento frio, a noite.

-eu não sei mais… mas ontem era verdade.

-Entre a razão e a guerra, eu fico com a guerra. A guerra é agora, é sempre guerra. O amor, ou amor e a guerra.

- …verdade, você sabe que eu sei jurar…

- Eu escolho a luz fria. Eu escolho vinho tinto. O cinza do seu olho. Todas as músicas bonitas, toda a beleza. Eu aposto no cavalo que perde. Eu acredito que aposto no cavalo que ganha, o cavalo perde.

- Aquele dia… verdade. Foi de verdade.

- As coisas da televisão, nada que me importe. Minhas camisas brancas. Um dia perfeito. Seu olho mais cinza.

- A verdade, eu juro.

- A guerra.

Seq3. int. apartamento – dia

O telefone toca insistente. O homem ignora. Está sentado fumando um cigarro e digitando em uma máquina de escrever. Um velho televisor está ligado e transmite as aventuras do super homem.

[v.o.]
- O amor ou a bomba. Pra tudo que você olhar, pra onde você olhar, existe a ilusão, a essência inconstante. A razão ou a guerra.

- Atende. Eu preciso falar com você. Eu preciso conversar. Eu preciso te dizer a verdade…

- O trabalho; a essência do trabalho, a razão, o método… não, o desrregramento total dos sentidos. Não. A escolha da alimentação, de lugar e clima, de distração. O racicínio ou a guerra. A guerra. O confronto direto com o ex-estranho. A coragem. Não, a covardia. O mergulho . Vinho tinto e um impulso suave na melancolia. Essa tarde vazia. A fuga, a dor do mundo. (pausa) Sim, não ao não. Todas as coisas são fruto do grande acaso. Eu aceito o acaso. Sim ao destino. Mergulhar no destino. Viver no limite do desejo. (pausa) Tenho nojo do erro proposital. Esse discurso velho. A derrota de qualquer discurso. O erro é espontâneo. O gesto surge do acaso; o grande acaso, germe de toda verdade.

Seq4. int. dia trem do metrô.

A garota no trem. Olhar desolado. Troca de olhares com outra garota.

[v.o.]

- Mentira. O seu olhar, o frio, a chuva da manhã, o dinheiro. A verdade é esse trem. Sou eu e o trem. Mentira a tristeza. Verdade a mentira, eu não sei sentir. Eu não sei procurar lá dentro. Eu não aceito o sofrimento. Eu não sei ser. (pausa) Você disse que não sabe ser sem que eu esteja. Mentiira, você sempre é. Eu não sou. Ela olha e quase me entende. Mentira. Eu não sou meu desejo. Meu desejo e minha alegria e minha montanha russa. Verdade que eu te desejo. Mentira, menira o meu desejo. (pausa) A luminosidade na parede dos prédios; as sombras mais sinistras. O frio, o frio.
- Um conto de outono. Um manifesto romântico. Elegia ao frio, ao discurso, à difusão. Eu escolho o vinho. Eu aposto no cavalo que perde. (pausa) A falta que você faz. O vício. As provas de amor ou amor? O amor incondicional. A guerra, o mergulho, todas as coisas que não importam. A morte. A morte que não é o frio. A morte é a vida e vice versa. O rancor eu deixo de lado, eu escolho as palavras, os detalhes perdidos. A dialética veio me salvar.
- Ódio. Que ódio! Todas as coisas que você me disse. Quanta bobagem. Você sabe, eu não sei ser sozinha. Eu preciso. Eu preciso da minha alegria em barras, bem rápido. Que ódio!

Seq5. int. Apartamento – fim do dia/noite.

O rapaz continua escrevendo. Um video clip na tv. Ele abre uma garrafa de vinho.

[v.o]

- Todas as coisas vulgares. Os desejos mundanos, eu não esqueço das coisas vulgares, mas o rancor eu deixo de lado. Eu não digo só o que você precisa. Eu não digo só o que você quer.

O telefone toca novamente. O rapaz não atende. Acende um cigarro. Escreve. Bebe vinho.

- Eu te vi hoje de manhã. Eu não quis te dizer nada. Eu gostei de te ver. Eu acho que gostei.
- O tempo. O tempo do cigarro. O tempo da ressaca. O tempo do seu suor. O seu olhar que sem ser meu não é nada demais. A duração de cada coisa. A certeza da dúvida. Eu quero você comigo.
- Eu preciso de alguém. Eu não sei ser sozinha, eu não suporto as coisas que você me diz.
- A minha capacidade de mudar tudo. Eu só posso oferecer esse delírio. Um video tape magoado.
- Chega! Assim eu não suporto mais. Eu te deixo aqui.
- Aqui. Bem aqui…

Seq6. int. Apartamento. Dia.

A garota volta ao apartamento. Eles se olham. O rapaz toca o rosto dela.

Seq7. int. apartamento. Dia.

A garota sentada no chão. Veste uma calcinha e casaco de pele. Expressão triste.

- Eu não sou essa boneca. Sou? Uma putinha.
- Você agora é minha essência. E sua essência é a beleza. Você é tão bonita.
- Tudo o que você me diz, é nada. E eu? O que eu sou?
- Eu sou o meu desejo. O meu desejo de desejar o seu desejo.
- Eu sou o sexo. Eu sou o sexo. Eu sou o sexo. O que você me diz cansa. Eu te deixo aqui.
- Aqui.

Garota vai embora novamente. Rapaz acende um cigarro, escreve, bebe.
- A permanencia da ilusão. A falta que você me faz. O limite do desejo. (pausa) Gosto de café. Gosto de cigarro. O prazer do trabalho. A ilusão em video tape. O gosto do trabalho. O fim do discurso. A busca da esssência. Minha liberdade: meu desejo.

O telefone volta a tocar. O rapaz se levanta. Desliga a tv. Atende o telefone.

- O retorno, o rastro da passagem do tempo. O peso do tempo. O retorno.

Imagens da cidade, sons da cidade, sobe lentamente a trilha sonora.

- As pessoas buscam adjetivos; você procura adjetivos. Eu procuro substantivos.

Créditos.




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